19 História da tecnologia de infravermelhos
Antes de 1800, nem sequer se suspeitava da existência da porção de infravermelhos no espectro eletromagnético. O significado
original do espectro de infravermelhos (ou simplesmente ‘infravermelhos’, como é geralmente conhecido) como forma de radiação
térmica é talvez menos óbvio atualmente do que na data da sua descoberta por Herschel, em 1800.
A sua descoberta foi obra do acaso, durante a procura de um novo material óptico. Sir William Herschel – astrónomo real do
rei Jorge III da Inglaterra e já famoso por ter descoberto o planeta Urano – procurava um filtro ótico para reduzir o brilho
da imagem do Sol nos telescópios, durante as observações solares. Ao testar várias amostras de vidro de cor que permitiam
reduções semelhantes do brilho, ficou intrigado quando se apercebeu de que algumas das amostras deixavam passar muito pouco
calor do Sol, enquanto outras deixavam passar tanto calor que, após alguns segundos de observação, os olhos corriam o risco
de sofrer lesões.
Herschel imediatamente se convenceu da necessidade de proceder a uma experiência sistemática, com o objetivo de descobrir
um único material que permitisse obter a redução de brilho pretendida, bem como uma redução máxima do calor. Iniciou a sua
experiência repetindo a experiência de Newton sobre o prisma, tentando, no entanto, estudar o efeito térmico em vez da distribuição
visual da intensidade no espectro. Começou por escurecer com tinta o bolbo de um termómetro de mercúrio em vidro sensível
e, utilizando-o como detetor de radiações, procedeu ao teste do efeito térmico das várias cores do espectro formado sobre
a superfície de uma mesa, fazendo passar a luz do Sol através de um prisma de vidro. Outros termómetros, colocados fora do
alcance dos raios solares, serviram de controlo.
À medida que o termómetro escurecido era lentamente deslocado através das cores do espectro, as leituras da temperatura registavam
um aumento contínuo desde o violeta até ao vermelho. Este resultado não era totalmente inesperado, uma vez que o cientista
italiano, Landriani, durante uma experiência semelhante, em 1777, já tinha observado mais ou menos o mesmo efeito. Todavia,
foi Herschel o primeiro a reconhecer que deveria existir um ponto onde o efeito térmico atingia um valor máximo e que as medições
limitadas à porção visível do espectro não tinham conseguido localizar.
Ao mover o termómetro para a região escura, para além da extremidade vermelha do espectro, Herschel teve a confirmação de
que o calor continuava a aumentar. Quando encontrou o ponto máximo, este encontrava-se muito para além da extremidade vermelha
– no que atualmente conhecemos por "comprimentos de onda infravermelhos".
Quando Herschel revelou a sua descoberta, referiu-se a essa nova porção de espectro eletromagnético como "espectro termométrico".
Quando se referia à radiação propriamente dita, utilizava por vezes a expressão "calor escuro" ou simplesmente "os raios invisíveis".
Ironicamente, e contrariamente à crença geral, não foi Herschel quem deu origem ao termo "infravermelho". A palavra só começou
a aparecer impressa cerca de 75 anos mais tarde, e ainda não se sabe muito bem a quem pertence o mérito da sua origem.
O facto de Herschel ter utilizado vidro no prisma da sua primeira experiência envolveu-o em algumas controvérsias com os seus
contemporâneos acerca da existência real dos comprimentos de onda infravermelhos. Alguns cientistas, na tentativa de comprovar
a sua descoberta, utilizaram indiscriminadamente vários tipos de vidro, com diferentes transparências nos infravermelhos.
Através de experiências posteriores, Herschel constatou as limitações na transparência do vidro relativamente à recém-descoberta
radiação térmica, vendo-se obrigado a concluir que a óptica de infravermelhos estaria provavelmente condenada à utilização
exclusiva de elementos refletores (ou seja, espelhos planos e curvos). Felizmente, isto apenas foi verdade até 1830, data
em que o cientista italiano, Melloni, fez a sua grande descoberta de que o sal-gema de ocorrência natural (NaCl) – disponível
em cristais naturais suficientemente grandes para serem transformados em lentes e prismas – é invulgarmente transparente aos
infravermelhos. Como resultado desta descoberta, o sal-gema tornou-se no principal material óptico de infravermelhos e assim
se manteve durante os cem anos seguintes, até ser dominada a arte de criar cristais sintéticos, nos anos 30 do século XX.
Os termómetros, enquanto detetores de radiação, mantiveram-se insubstituíveis até 1829, ano em que Nobili inventou o termopar.
(O termómetro utilizado por Herschel permitia leituras até aos 0,2 °C e os modelos posteriores permitiam efetuar uma leitura
até aos 0,05 °C). Assistiu-se então a um avanço notável, quando Melloni ligou vários termopares em série para formar a primeira
termopilha. O novo dispositivo era, pelo menos, 40 vezes mais sensível do que o melhor termómetro da altura para deteção de
radiação térmica, capaz de detetar o calor libertado pelo corpo de uma pessoa a três metros de distância.
A primeira imagem térmica tornou-se possível em 1840, resultado do trabalho efetuado por Sir John Herschel, filho do descobridor
dos infravermelhos e, também ele, um astrónomo famoso. Baseando-se na evaporação diferencial de uma película fina de petróleo
quando exposta a um padrão térmico incidindo nela, era possível ver-se a imagem térmica através da luz refletida onde os efeitos
de interferência da película de petróleo tornavam a imagem visível a olho nu. Sir John conseguiu ainda obter um registo rudimentar
da imagem térmica em papel, a que chamou "termógrafo".
O aperfeiçoamento do detetor de infravermelhos progrediu lentamente. Outra descoberta importante, feita por Langley em 1880,
foi a invenção do bolómetro. Este consistia numa tira fina e enegrecida de platina ligada a um braço de um circuito de ponte
de Wheatstone sobre o qual incidiam as radiações infravermelhas e ao qual respondia um galvanómetro sensível. Diz-se que este
aparelho permitiu detetar o calor libertado pelo corpo de uma vaca que se encontrava a uma distância de 400 metros.
Um cientista inglês, Sir James Dewar, utilizou pela primeira vez gases liquefeitos como agentes de arrefecimento (como azoto
líquido a uma temperatura de –196 °C) em pesquisas a baixa temperatura. Em 1892, inventou um recipiente único isolado a vácuo,
no qual é possível armazenar gases liquefeitos durante vários dias. A "garrafa térmica" comum, utilizada para conservar bebidas
quentes e frias, baseia-se nesta invenção.
Entre 1900 e 1920, os inventores deste mundo "descobriram" os infravermelhos. Foram emitidas muitas patentes para dispositivos
de deteção de pessoas, artilharia, aviões, navios e até icebergues. Os primeiros sistemas operacionais, no sentido atual do
termo, começaram a ser desenvolvidos durante a Primeira Guerra Mundial (1914–18), em que ambas as fações possuíam programas
de investigação vocacionados para a exploração militar dos infravermelhos. Estes programas incluíam sistemas experimentais
para intrusão/deteção do inimigo, deteção de temperatura à distância, comunicações seguras e orientação de "torpedos aéreos".
Um sistema de procura por infravermelhos testado durante este período permitia detetar um avião em aproximação a uma distância
de 1,5 km, ou uma pessoa a mais de 300 metros.
Os sistemas mais sensíveis até essa altura baseavam-se todos em variantes da ideia do bolómetro, mas o período entre as duas
grandes guerras assistiu ao desenvolvimento de dois novos e revolucionários detetores por infravermelhos: o conversor de imagens
e o detetor de fotões. Inicialmente, o conversor de imagens recebeu maior atenção por parte dos militares, dado que, pela
primeira vez na história, permitia que um observador visse, literalmente, no escuro. Porém, a sensibilidade do conversor de
imagens limitava-se aos comprimentos de onda próximos de infravermelhos e os alvos militares de maior importância (como, por
exemplo, os soldados inimigos) tinham de ser iluminados por feixes infravermelhos de deteção. Uma vez que isto envolvia o
risco de denunciar a posição do observador a um observador inimigo com o mesmo equipamento, é compreensível que o interesse
dos militares pelo conversor de imagens tenha desvanecido.
As desvantagens tático-militares dos chamados sistemas "ativos" de formação de imagens térmicas (ou seja, equipados com feixes
de deteção) incentivaram, após a Segunda Guerra Mundial (1939–45), programas militares secretos abrangentes de pesquisa de
infravermelhos para estudarem a possibilidade de desenvolverem sistemas "passivos" (sem feixes de deteção) com base no extremamente
sensível detetor de fotões. Durante esse período, as regras de sigilo militar proibiam terminantemente a divulgação do estado
de desenvolvimento da tecnologia de formação de imagens de infravermelhos. O véu só começou a ser levantado em meados dos
anos cinquenta do século XX e, a partir daí, começaram finalmente a estar à disposição das comunidades industrial e científica
civis dispositivos apropriados de formação de imagens térmicas.