34  Teoria da termografia

34.1  Introdução

As especificidades da radiação de infravermelhos e a respetiva técnica de termografia continuam desconhecidas para muitos dos utilizadores de uma câmara de infravermelhos. Nesta secção será apresentada a teoria da termografia.

34.2  Espectro eletromagnético

O espectro eletromagnético é dividido arbitrariamente em diversas regiões de comprimento de onda,‎ designadas por bandas,‎ distinguidas pelos métodos utilizados para produzir e detetar a radiação. Não existe nenhuma diferença fundamental entre a radiação nas diferentes bandas do espectro eletromagnético. Gerem-se todas pelas mesmas leis e as únicas diferenças devem-se às diferenças no comprimento de onda.
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Figura 34.1  Espectro eletromagnético. 1: Raio X; 2: UV; 3: Visível; 4: Infravermelhos; 5: Micro-ondas; 6: Ondas de rádio.

A termografia utiliza a banda espectral de infravermelhos. Na extremidade da onda curta a fronteira situa-se no limite da perceção visual,‎ na área a vermelho. Na extremidade de onda longa,‎ funde-se com os comprimentos de onda das micro-ondas e radioelétricas,‎ em termos de milímetros.
A banda de infravermelhos é frequentemente subdividida em quatro bandas mais pequenas,‎ cujos limites são também escolhidos de forma arbitrária. Incluem: a próxima ao infravermelho(0,‎75–3 μm)‎,‎ a infravermelho médio (3–6 μm)‎,‎ a afastada do infravermelho (6–15 μm)‎ e a extrema de infravermelhos (15–100 μm)‎. Muito embora os comprimentos de onda sejam fornecidos em μm (mícrones)‎,‎ são ainda frequentemente utilizadas outras unidades para medir o comprimento de onda nesta região espectral,‎ por exemplo. o nanómetro (nm)‎ e o Ångström (Å)‎.
As relações entre as diferentes medições de comprimento de onda são as seguintes:
formula

34.3  Radiação do corpo negro

Um corpo negro consiste num objeto que absorve toda a radiação de que é alvo,‎ em qualquer comprimento de onda. A aparente utilização imprópria de negro para um objeto que emite radiação é explicada pela Lei de Kirchhoff (segundo Gustav Robert Kirchhoff,‎ 1824–1887)‎,‎ que determina que um corpo capaz de absorver toda a radiação em qualquer comprimento de onda é igualmente capaz na emissão de radiações.
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Figura 34.2  Gustav Robert Kirchhoff (1824–1887)‎

A construção de uma fonte de corpo negro é,‎ em princípio,‎ muito simples. As características de radiação de uma abertura numa cavidade isotérmica,‎ feita de um material absorvente opaco,‎ representa quase exatamente as propriedades de um corpo negro. Uma aplicação prática do princípio para a construção de um absorvente perfeito de radiação consiste numa caixa que é impermeável à luz,‎ exceto numa abertura que existe num dos lados. Qualquer radiação que entre pelo orifício é dispersa e absorvida por reflexões repetidas e,‎ assim,‎ apenas uma fração infinitesimal pode,‎ eventualmente,‎ escapar. A escuridão conseguida na abertura é quase igual à de um corpo negro e quase perfeita para todos os comprimentos de onda.
Instalando um elemento de aquecimento adequado a tal cavidade isotérmica,‎ consegue-se o que é designado por radiador de cavidade. Uma cavidade isotérmica aquecida a uma temperatura uniforme gera radiação de corpo negro,‎ cujas características são determinadas exclusivamente pela temperatura da cavidade. Estes radiadores de cavidade são,‎ normalmente,‎ utilizados como fontes de radiação em padrões de referência de temperatura em laboratório para calibrar instrumentos termográficos,‎ tais como a câmara da FLIR Systems por exemplo.
Caso a temperatura de radiação do corpo negro aumente para um valor superior a 525 °C,‎ a fonte começa a tornar-se visível,‎ de forma que,‎ a olho nu,‎ deixa de parecer negro. Esta é a temperatura de aquecimento vermelho incipiente do radiador,‎ que depois se transforma em laranja ou amarelo à medida que a temperatura aumenta. De facto,‎ a definição da chamada temperatura de cor de um objeto é a temperatura à qual um corpo negro teria de ser aquecido para conseguir a mesma aparência.
Tenha agora em consideração três expressões que descrevem a radiação emitida por um corpo negro.

34.3.1  Lei de Planck

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Figura 34.3  Max Planck (1858–1947)‎

Max Planck (1858–1947)‎ conseguiu descrever a distribuição espectral da radiação emitida por um corpo negro através da seguinte fórmula:
formula
em que:
Wλb
Emitância radiante espectral do corpo negro a comprimento de onda λ.
c
Velocidade da luz = 3 × 108 m/s
h
Constante de Planck = 6,‎6 × 10-34 Joule seg.
k
Constante de Boltzmann = 1,‎4 × 10-23 Joule/K.
T
Temperatura absoluta (K)‎ de um corpo negro.
λ
Comprimento de onda (μm)‎.
A fórmula de Planck,‎ quando representada graficamente para várias temperaturas,‎ produz uma família de curvas. Seguindo qualquer curva Planck específica,‎ a emitância espectral é de zero a λ = 0,‎ depois aumenta rapidamente para uma máxima a um comprimento de onda λmax e,‎ depois de o ultrapassar,‎ aproxima-se novamente do zero a comprimentos de onda muito longos. Quanto mais elevada for a temperatura,‎ mais curto é o comprimento de onda ao qual a máxima é registada.
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Figura 34.4  Emitância radiante espectral do corpo negro segundo a lei de Planck,‎ representada graficamente para várias temperaturas absolutas. 1: Emitância radiante espectral (W/cm2 × 103 (μm)‎)‎; 2: Comprimento de onda (μm)‎

34.3.2  Lei do deslocamento de Wien

Ao diferenciar a fórmula de Planck no que respeita a λ,‎ e descobrindo a máxima,‎ temos:
formula
Esta é a fórmula de Wien (segundo Wilhelm Wien,‎ 1864–1928)‎,‎ que exprime matematicamente a observação comum de que as cores variam de vermelho até laranja ou amarelo à medida que a temperatura de um radiador térmico aumenta. O comprimento de onda da cor é o mesmo que o calculado para λmax. É conseguida uma boa aproximação ao valor de λmax para uma determinada temperatura de corpo negro se se aplicar a regra básica de 3000/T μm. Assim,‎ uma estrela tão quente como a Sírio (11 000 K)‎,‎ que emite uma luz branca-azulada,‎ irradia com o pico de emitância radiante espectral que ocorre dentro do espectro ultravioleta invisível,‎ a um comprimento de onda de 0,‎27 μm.
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Figura 34.5  Wilhelm Wien (1864–1928)‎

O Sol (aprox. 6 000 K)‎ emite luz amarela,‎ regista o pico a cerca de 0,‎5 μm no centro do espectro de luz visível.
A uma temperatura ambiente (300 K)‎ o pico de emitância radiante regista-se a 9,‎7 μm,‎ na banda afastada de infravermelhos,‎ enquanto que à temperatura de nitrogénio líquido (77 K)‎,‎ a máxima da quase insignificante quantidade de emitância radiante regista-se a 38 μm,‎ nos comprimentos de onda extremos de infravermelhos.
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Figura 34.6  Curvas de Planck registadas graficamente em escalas semilogarítmicas de 100 K a 1000 K. A linha pontilhada representa o lugar geométrico da emitância radiante máxima a cada temperatura,‎ conforme descrito na Lei do deslocamento de Wien. 1: Emitância radiante espectral (W/cm2 (μm)‎)‎; 2: Comprimento de onda (μm)‎.

34.3.3  Lei de Stefan-Boltzmann

Ao integrar a fórmula de Planck de λ = 0 a λ = ∞,‎ obtemos a emitância radiante total (Wb)‎ de um corpo negro:
formula
Esta é a fórmula Stefan-Boltzmann (segundo Josef Stefan,‎ 1835–1893,‎ e Ludwig Boltzmann,‎ 1844–1906)‎,‎ que determina que a energia emissiva total de um corpo negro é proporcional à quarta energia da sua temperatura absoluta. Graficamente,‎ Wb representa a área abaixo da curva de Planck para uma temperatura específica. Pode ser demonstrado que a emitância radiante no intervalo λ = 0 a λmax é de apenas 25% do total,‎ o que representa,‎ aproximadamente,‎ a quantidade de radiação do Sol que é registada dentro do espectro de luz visível.
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Figura 34.7  Josef Stefan (1835–1893)‎,‎ e Ludwig Boltzmann (1844–1906)‎

Utilizando a fórmula Stefan-Boltzmann para calcular a energia irradiada pelo corpo humano,‎ a uma temperatura de 300 K e numa área de superfície externa de aproximadamente 2 m2,‎ obtemos 1 kW. Esta perda de energia não poderia ser suportada se não fosse a absorção de radiação de compensação das superfícies adjacentes,‎ a temperaturas ambiente que não variam drasticamente da temperatura do corpo - ou,‎ naturalmente,‎ tendo em conta o vestuário.

34.3.4  Emissores não-corpo negro

Até agora,‎ apenas foram considerados os radiadores e a radiação de corpo negro. No entanto,‎ os objetos reais quase nunca estão em conformidade com estas leis numa região de comprimento de onda alargada – muito embora possam apresentar um comportamento próximo do corpo negro em determinados intervalos espectrais. Por exemplo,‎ um determinado tipo de tinta branca pode aparecer perfeitamente branca no espectro de luz visível,‎ mas torna-se nitidamente cinzenta a cerca de 2 μm e,‎ ultrapassando os 3 μm,‎ torna-se quase preta.
Podem ocorrer três processos que evitam que um objeto real se comporte como um corpo negro: pode ser absorvida uma fração da radiação incidente α,‎ pode ser refletida uma fração ρ e pode ser transmitida uma fração τ. Uma vez que todos estes fatores são mais ou menos dependentes do comprimento de onda,‎ o índice λ é utilizado para representar a dependência espectral das suas definições. Assim:
  • A absorção espectral αλ= à relação da energia radiante espectral absorvida por um objeto com a que incide sobre si.
  • A reflexão espectral ρλ = à relação da energia radiante espectral refletida por um objeto com a que incide sobre si.
  • A transmissão espectral τλ = à relação da energia radiante espectral transmitida através de um objeto com a que incide sobre si.
A soma destes três fatores devem sempre resultar no total a qualquer comprimento de onda,‎ para obtermos a relação:
formula
Para materiais opacos τλ = 0 e a relação simplifica-se para:
formula
Outro fator,‎ designado por emissividade,‎ é necessário para descrever a fração ε da emitância radiante de um corpo negro produzida por um objeto a uma temperatura específica. Deste modo,‎ temos a seguinte definição:
A emissividade espectral ελ= à relação de energia radiante espectral de um objeto com a de um corpo negro à mesma temperatura e no mesmo comprimento de onda.
Expresso em termos matemáticos,‎ isto pode ser escrito como a relação da emitância espectral do objeto com a de um corpo negro da seguinte forma:
formula
Em termos gerais,‎ existem três tipos de fontes de radiação,‎ que se distinguem pelas formas como a emitância espectral de cada uma varia com o comprimento de onda.
  • Um corpo negro,‎ para o qual ελ = ε = 1
  • Um corpo cinzento,‎ para o qual ελ = ε = constante inferior a 1
  • Um radiador seletivo,‎ para o qual ε varia com o comprimento de onda
Segundo a lei de Kirchhoff,‎ para qualquer material,‎ a emissividade espectral e a absorção espectral de um corpo são iguais em quaisquer temperaturas e comprimentos de onda especificados. Ou seja:
formula
A partir disto obtemos,‎ para um material opaco (visto que αλ +‎ ρλ = 1)‎:
formula
Para materiais extremamente polidos ελ aproxima-se de zero,‎ de forma que para um material perfeitamente refletor (isto é,‎ um espelho perfeito)‎ temos:
formula
Para um radiador de corpo cinzento,‎ a fórmula Stefan-Boltzmann transforma-se em:
formula
Isto determina que a energia emissiva total de um corpo cinzento é a mesma de um corpo negro à mesma temperatura reduzida proporcionalmente ao valor de ε do corpo cinzento.
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Figura 34.8  Emitância radiante espectral de três tipos de radiadores. 1: Emitância radiante espectral; 2: Comprimento de onda; 3: Corpo negro; 4: Radiador seletivo; 5: Corpo cinzento.

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Figura 34.9  Emissividade espectral de três tipos de radiadores. 1: Emissividade espectral; 2: Comprimento de onda; 3: Corpo negro; 4: Corpo cinzento; 5: Radiador seletivo.

34.4  Materiais semitransparentes a infravermelhos

Considere agora um corpo semitransparente,‎ não metálico – digamos,‎ na forma de uma placa espessa e plana de material plástico. Quando a placa é aquecida,‎ a radiação gerada no seu volume deve expandir-se até às superfícies através do material em que é parcialmente absorvida. Além disso,‎ quando chega à superfície,‎ alguma dessa radiação é refletida novamente para o interior. A radiação refletida em retorno é,‎ de novo,‎ parcialmente absorvida,‎ mas parte chega à outra superfície,‎ através da qual a grande maioria da radiação escapa e parte é novamente refletida. Muito embora as reflexões progressivas se tornem cada vez mais fracas,‎ devem ser todas somadas quando é calculada a emitância total da placa. Quando a série geométrica resultante é somada,‎ a emissividade efetiva de uma placa semitransparente é obtida da seguinte forma:
formula
Quando a placa se torna opaca,‎ esta fórmula fica reduzida à fórmula única:
formula
Esta última relação é particularmente conveniente,‎ pois é muitas vezes mais fácil medir a reflexão do que medir diretamente a emissividade.